O filme “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, encerra um capítulo da nossa história, e abre tantos outros quanto ao debate do papel da democracia no Brasil.
Acima do enredo bem contado, e por detrás das cortinas e dos sets de gravações, existe uma Brasil quase perdido na história, que ainda perdura sobre décadas e que será levado em discussão nas eleições de 2026.
Afinal! Quão fortalecido está o nosso regime político em uma época que se levantam cartazes de “volta à ditadura” e “abaixo às instituições”?
A história real que virou entretenimento precisou ser montada por um dos maiores produtores, interpretada por uma das seis melhores atrizes do mundo de 2025 e assistida por milhões de expetadores por pelo menos sete dias consecutivos em uma das cinco áreas metropolitanas consideradas pela Academia em Angeles, na Bay Area (que inclui a cidade de San Francisco), Nova York, Chicago, Dallas-Fort Worth e Atlanta para entender que o Brasil requer cuidados imediatos, quando se toca no assunto democracia.
A vida de Rubens Paiva certamente representou percentual mínimo, diante dos silentes ao sistema que abarcou a pior tortura e momento obscuro do país, que foi a perca da liberdade cotidiana de um povo que sempre lutou pro dia nascer feliz.
A fotografia dos anos setenta, traduzida sob uma vida bem mais pacata das cidades expôs a violência política traduzida em uma aristocracia – não apenas militar, mas também civil – que ainda luta para permanecer no poder, como se todas as outras classes, incluindo a artística não seguissem o roteiro da vida como ela é, ou deve ser.
No jogo da vida real, o assunto democracia é coisa séria e vai além das barreiras transponíveis das vontades individuais. Ao se realizar “comédia no cinema com as suas leis”, a classe burguesa sem religião, ora criticada, agora aplaudida, assegurou o futuro de uma nação que passados mais de 50 anos, ainda luta por liberdade e, ainda a tem relativizada pelas próprias instituições como meio de controle político.
A história do Brasil possui muitos capítulos e, na semana em que escolas de samba lançam carro alegórico com indígenas segurando a cabeça de Dom Pedro, a democracia, sem os recortes que são produzidos pela internet, não ficou calada com as coisas que viram no conforto e na acomodação. Lançou mão da arte para, sem filtros, mostrar para o mundo os abusos sofridos por aqueles que se opunham a um regime, que como a história, contrasta os momentos iniciais de alegria, quando a família está unida e cheia de expectativas para o futuro, mas que, no fim das contas, quem paga é a liberdade.
Atrás das câmeras existe uma discussão internacional que chamou a atenção dos expectadores em que liberdade e democracia são protagonistas entre passado e futuro, que se repete na Alemanha, França, EUA e no Brasil.
É preciso dar um jeito quando torturadores ainda são vistos como heróis. Não é o filme, não é a direita conservadora, não é esquerda libertária. É a vida como ela é.
A democracia requer urgência sem encenação. Políticos não são heróis, mas dirigentes de um filme em que a liberdade deve ser a única premiada.
DANUBIO CARDOSO REMY ROMANO FRAUZINO é mestre em Ciência do Direito. Advogado e servidor público.
